Fevereiro 22, 2003


Parece até engraçado, mas ultimamente o que mais tenho visto é gay preconceituoso.

Eles estão sempre lá nos jornais. Fazendo passeata contra a discriminação. Espalhando e-mails pró-gay. Fazendo campanhas anti-homofobia. Aglomerações do orgulho gay. Afirmando que o mundo não tem mente aberta. Que todos os preconceitos deveriam ser quebrados. Que ninguém tem tolerância. Que são todos racistas e preconceituosos. Que eles têm que ter sua liberdade sexual respeitada. Que o próximo merece respeito. E todas essas porras.

Eu concordo.

Mas ao mesmo tempo eu sei que metade desse povo é "maria vai com as outras", porque, como sempre digo, brasileiro adora um Oba-Oba e sempre quer mais um motivo pra tomar êcstase, fumar maconha, aparecer no jornal, matar trabalho e encher a cara. Quantos eu não conheço que dizem que odeiam preto. Existe muito gay racista por aí. E para quem não quer ser julgado, julgar desta forma é o cúmulo do paradoxo. Talvez gay racista não exista tanto. Mas que jogue a primeira pedra quem nunca ouviu "hetero não presta" ou "odeio mulher". Gay que quando vê uma mulher na rua, faz cara feia. Quando vê um burro, sacaneia. Quando vê um casal hetero se beijando, acha nojento. Que acha lesbianismo grotesco. Que sacaneia bocetas. Pode ser até que eles não falem isso alto na cara das pessoas, mas não dá para negar que esse preconceito existe.

Isso eu acho ridículo.

O pessoal deveria refletir um pouco mais sobre si mesmos. Sobre o que pensa. O que acha certo. O que deve falar e como deve agir. Só depois de ter plena consciência de seus atos, que podem sair levantando bandeira por aí. Impressionante como falta maturidade nesse mundo. Outra coisa, é que o povo adora generalizar e acaba falando merda. Uma coisa é dizer "odeio os EUA". Outra é dizer "odeio os americanos". Eu, particularmente, não gosto da politica imposta pelos EUA. Mas não tenho nada contra os americanos. Quantos blogues vocês já não viram por aí que agora têm um gif "não me rotule, não sou produto". E na maioria desses blogs você encontra "odeio os americanos". Rá. No mínimo irônico. Gays não querendo ser vistos como "gay" e sim como indivíduo, mas classificando um americano com "um americano" e não como um indivíduo. Pra tudo tem uma excessão. Então, abre o olho e fecha a boca.


Me diz como é que eu posso não me apaixonar:

O menino tem 15 anos. Calça 42. Lê Nietsche, Neruda e Dostoiévsky ["crime e castigo", inclusive]. Tem o corpo perfeito. O rosto perfeito. O melhor cabelo que eu já vi. Um gosto musical apuradíssimo de trip-hop e jazz. Fala inglês britânico fluente. Canta bem. Tem a voz linda. É super-inteligente. É blasé quando quer. Super divertido. Sabe gemer como ninguém. Não tem sotaque nenhum. Tem tiradas de frases ótimas. Viciado em sexo. É sexy. Super fashion. Interessante.

Por que você tinha que morar tão fodidamente longe?


Estudar inglês está sendo tão frustrante.

Eu estou estudando todos os dias. Horas e horas. Faço dever de casa. Refaço exercícios antigos. Revejo meus maiores erros. Direto. Pego a madrugada e vou afora. Sem parar. Pancadão. Lendo livros em inglês. Fazendo observações. Sublinhando pronomes. Anotando palavras que eu não sei. Olhando significado e etimologia dessas. Muitas notas de rodapé.

Mas continuo errando ainda nas coisas simples. Esqueço de botar uns "h"s. Ou não duplico o "p". Ou duplico "t" demais. E no livro que estou lendo tem umas palavras que já apareceram mais de 10 vezes; toda hora vou olhar o significado e nunca consigo me lembrar quando me deparo com ela de novo.

Isso porque a minha pronúncia está super-enferrujada. Na minha cabeça, enquanto penso, flui um inglês-britânico perfeito. Mas na hora de falar eu acabo me engasgando todo e tropeçando no meio da frase. Não sei direito o que tenho que fazer. Se é ver mais filmes, ou ler em voz alta.

Só espero que eu consiga melhorar antes da minha prova de final de ano. Seria decepcionante, não passar.

Fevereiro 21, 2003


Hoje saí às 3 da tarde para tirar xérox e só cheguei em casa às 7. Acreditem: é xérox pra caralho.

O que acontece é que, em qualquer lugar que resolvo estudar, me é passada aquela enorme e tradicional lista de livros para comprar. A lista, é claro, sempre inclui os livros mais gordos que você pode encontrar, sendo que metade deles são importados e só mesmo vendendo meus rins para conseguir o dinheiro todo. O truque, então, é ser muito simpático na primeira semana de aula, fazer vários melhores amigos e depois, gentilmente, pedir o livro emprestado a eles. Desculpem-me, politicamente corretos, mas até eu que sou aspirante a escritor, me recuso a comprar essas porras por esse preço.

Hoje de tarde, encarei aquela enorme de pilha de livros e tomei a tarefa de ir tirar xérox daquilo tudo. Ainda bem que não tinha fila. Vou dizer que ficar 4 horas em pé, em frente àquela máquina que esquenta mais que um choffage, no verão melhor estilo Rio 40 graus, me fez chegar em casa pingando, com uma puta vontade de tomar banho.

Confesso que até foi divertido. Bárbara, a "xerocadora", não calava a boca um segundo e só falava merda. Quando ela foi falsificar o meu livro de francês, olhou pra minha cara e disse "vou dizer que homem que fala francês, pra mim, é uma coisa meio tchôla". Rá. Sou tchôlo, baby. No decorrer das horas desvirginei vários livros novinhos que agora estão mega-arregaçados. Tecnicamente eu deveria ter pena de quem comprou os livros, mas estar todo aberto ou não, nem faz difeernça. Além disso, quanto mais assim ele está, é mais fácil de manter as páginas abertas, sem ter que ficar botando a borracha encima, como peso de papel, para ela não voar.

E Bárbara, a xerocadora, passou metade do tempo conversando com "o tiozinho". O servente do local que estava completamente bêbado. Tiozinho, o bêbado, em sua magistral educação, queria levar Bárbara, a xerocadora, para a cama. Foram 2 horas de diálogos do tipo.

- Eu sei qui tu tá afim de trepá comigo.
- Cai fora, tiozinho.
- Vamo lá dá uma bimbadinha.
- Socorro! Ainda tenho o meu orgulho.
- Teu orgulho acaba quando tu tiver lavando minhas cuecas.
- Larga de mim, bixo ruim.
- Quero te metê uns 5 filhos
- Só se for de barriga de aluguel.
- Mas tu tem quadril largo. Dá uma ótima parideira.

As outras 2 horas foram conversas minhas com Bárbara, a xerocadora que só falava merda. Foi, no mínimo, divertido. Mas poderia ter sido bem menos estressante. O bom é que acabei o dia com um saldo super-positivo. Com o dinheiro que consegui guardar, não comprando os livros originais, dá pra fazer uma viagem de ida-e-volta até São Paulo.

Fevereiro 20, 2003


Sou ótimo para reclamar das coisas, mas tenho que admitir que 2003 está sendo o meu ano. Nunca tive um ano que começou tão bom, tão positivo como esse. Minha vida está se ajeitando em todos os sentidos.

Na parte amorosa, finalmente desencanei de encontrar amores ou me apaixonar e estou simplesmente vivendo. As vezes ficando aqui ou trepando ali, mas nada demais. Sem grude. Sem nada fixo. Essa era a palavra. Tive casos com pessoas conhecidas e amigos, mas não foi nada fixo e o astral entre nós está ótimo. Parece até milagre. Cheguei até a ir pra cama com um desses blogueiros GLS famosos, que quando você lê o blog pensa "óóóó, ele parece inatingível". Foi bem legal e ele é uma ótima pessoa. Estamos bem amigos e todas as conversas têm aquelas divertidas segundas intenções.

No lado social, tudo está às mil maravilhas. Eu estou bem e, até onde sei, meus amigos também. Estou conseguindo agir como quero, sendo mais solto, mais convincente. Mas ainda falta muito para chegar no nível em que quero, embora esteja trabalhando nisso. Nesses 2 meses fiz várias amizades e muitas estão sendo bastante importantes pra mim. Vi quem me ajudou nas horas que precisei e é um puta orgulho falar o quanto meus amigos foram fiéis. Todos eles. Até as pessoas mais inusitadas estavam me dando apoio e ajuda como podiam. Acabou aquele bafafá de colégio e selecionar/evitar pessoas ficou mil vezes mais fácil. Sendo que agora posso começar a agir mais naturalmente do modo que sou. Conheci alguns amigos virtuais, a quem agora sou mais próximo e adorei todos eles. Até as programações com essas pessoas têm sido diferentes: mais divertidas e interessantes. Tenho que agradecer muito a todos eles. Cada um deles me foi muito especial de alguma forma. E a maioria parece que vem me entendendo melhor, fazendo fluir um certo timing em relação a pensamento/atitude. Pena que poucos lêem este blog.

Nos estudos, consegui passar no vestibular para o curso que eu queria, na faculdade que eu queria. Vou sempre me lembrar disso, porque foi uma meta na qual eu batalhei muito ano passado. Me dediquei mesmo. Não sei se alguém passou por isso como eu, mas depois de receber o resultado de que eu tinha conseguido, me olhei no espelho pensando "eu realmente me dediquei pra essa porra. Passei um ano estudando que nem uma vaca e valeu a pena." Não existe nada melhor do que ver o esforço reconhecido. Ainda mais quando o esforço é tão fodidamente grande! No inglês, estou fazendo um curso preparatório para um daqueles importantes diplomas inglêses, com o qual poderei dar aula [caso venha a fazer uma complementação pedagógica]. No francês, estou fazendo a mesma coisa, só que para um diploma da França. Já até sou formado nas 2 linguas, mas achei importante dar uma continuação aos estudos para aprofundar e realmente aprender. Já comecei a estudar bastante pros dois. Estou ralando de verdade, porque sei que as provas são difíceis e eu quero muito passar, porque também são bastante caras. Ademais, os diplomas são super-importantes na minha carreira e em qualquer currículo. E estes, além de serem mundialmente reconhecidos, não têm prazo de validade, então, se eu me enferrujar um pouco adiante, não tenho com o que me preocupar. Na faculdade, vou ver se mergulho de cabeça nesse primeiro semestre, para ver se ganho uma bolsa de estudos qualquer, que nem a que eu tinha no colégio.

Profissionalmente, para quem não trabalha e nem tem aspiração nenhuma, no momento, em fazê-lo, até que tenho ido bem. Consegui fazer uma exposição. Tenho marcado algumas participações em vídeos e performances. Consegui entrar num projeto artístico de uma revista, na qual fiz uma página e me divulguei. Entrei como colunista de um site importante, onde não ganho nada, mas pelo menos já fiz contatos interessantes [aliás, a quantidade de contatos que tenho feito é assustadora]. Ganhei um concurso e com ele entrou uma grana junto. E continuo fazendo, produzindo e trabalhando para mim mesmo, ainde que não ganhe nada. Só para manter meu trabalho ativo. Acho muito importante desenvolver sempre e não perder o hábito. Sou hiperativo e workaholic mesmo.

O tempo que sempre foi um problema enorme para mim, agora parece mais manipulável. Estou conseguindo brincar com ele e encaixar tudo nos seus lugares. Isso está me custando manhãs de sábados, falta de descanso, madrugadas ativas, mas só de ver tudo se encaixando perfeito que nem Tetris, me motiva. Não tenho dormido nada, mas isso não costuma me atingir muito e ainda consigo me manter em pé e atento. Enquanto eu não cair, vou andando. Confesso que cortar um pouco a internet me ajudou bastante a ganhar tempo. Isso daqui vicia e estava me consumindo. Eu tinha 9 blogs e mantinha-os todos atualizados com uma periocididade invejável. Agora, só tenho 2 que atualizo diariamente e outro no qual faço participações hebdomadárias.

Vou dizer que para quem estava, no réveillon, na virada do ano, super-doente, sem conseguir me levantar, vomitando para tudo que é lado, deprê, sozinho e cheio de pensamentos suicidas, meu ano está ótimo. Mais um motivo para eu desacreditar nessas macumbas, mandingas e simpatias. Quero mais é que a Iemanjá vá pra puta que o pariu!


Putz. Descobri que meu irmão é gay. Socorro! O que eu faço? Gente, isso foi inusitado.

Fevereiro 19, 2003


Eu estava aqui lendo o blog da Mijona que criticou Smirnoff Ice, que é bebida de boiola. Realmente. Isso não é bebida de quem bebe. É bebida engana-troxa para dar para os straight-edges e dizer "não tem álcool não, pode beber". E ver eles tontos depois de 5 garrafas [ficar tonto com 5 garrafas dessa bebidinha? Rá. Quem bebe Smirnoff Ice fica tonto até com 2 cervejas.]

Tem gosto de Limão Brama. Ou Pepsi Twist. Ou fanta citrus. Essas porras têm todo o mesmo gosto. Eu sempre bebo a que tem a embalagem mais bonitinha. Já que os mirabolantes cientistas das multinacionais não conseguem fazer nada de original, então vamos dar alguma trégua pros designers.

Falando em limão, limonada e afins, hoje fui num restaurante e no cardápio estava lá "Limonada Suissa". Suissa? Rá. Essa é a legítima limonada do povão! Além ir com casca, deve ir com folha, galho, raiz. Se bobear eles jogam até terra lá dentro.

E qual é a dos "sucos del vale"? Aquela merda é horrível e custa um absurdo. Ademais, o nome é escrotérrimo: sucos del vale. Sempre que vou procurar algo para beber com uma amiga minha, e avistamos essa merda falamos "buenos dias bambina, hola mutchatcho, aceitas uno sabuoroso sukito del vale?". O pior é o de morango. Aquilo pode ter gosto de qualquer coisa, menos de morango. Aliás, todas essas coisas de morango, nunca têm gosto de morango.

Crianças,
Bebam pisco, a bebida nacional do Peru. É difícil de achar, mas vale a pena. E quem não tem grana, vai se virando naqueles vinhos "sangue de boi" de 3 reais.

Fevereiro 18, 2003


Eu me amo

Isso é algo que eu sempre gosto de deixar bem claro. Mesmo que, as vezes, minha auto-estima esteja baixa, eu me amo. Eu me amo mais do que qualquer um poderá me amar. Do mesmo jeito que ninguém me odeia tanto quanto eu. E só consigo viver assim: neste equilíbrio. Não importa o que me aconteça, eu não caio. O problema pode ser grande, pode ser forte, pode ser grave. Eu vou estar lá. Com os 2 pés no chão. Firmes. De cabeça erguida. E olhando para frente.

Tenho pena das pessoas que não se amam. Que se largam. Que não lutam por si mesmas. Que não correm atrás de seus sonhos. Tenho pena mesmo de quem não vive pra si. Quem não olha pra dentro. Quem não faz o que gosta. Quem não diz o que quer. De quem só conta as histórias dos outros. Das pessoas que não vivem. Dos que não têm respeito por si mesmos. Dos que acham que não podem, que não têm capacidade, que não conseguem.

Gosto de quem luta. De quem trabalha. De quem corre atrás e faz. Realiza. Que tem orgulho de si. Que sabe usar o que tem. Sabe viver como pode. E ser feliz assim. Sempre acreditando no seu potencial. Gosto de quem vive o agora e não dos que vivem nos sonhos do futuro ou nos pesadelos do passado. Gosto de pessoas vivas. Pessoas intensas. Pessoas verdadeiras. Preocupadas. Gosto de quem se conhece e se ama como é: com defeitos e qualidades.



Fevereiro 17, 2003


"Money get back
I'm alright Jack keep your hands off my stack"


Dinheiro é algo que, sempre que temos, falamos que não precisamos muito dele. Mas quando a situação aperta e precisamos desesperadamente dele, podemos fazer absolutamente qualquer coisa.

A situação aqui em casa anda tão difícil. Tão apertada. Meu pai não tem dinheiro. Nem minha mãe. Nem minha avó. As vezes eu fico pensando no quanto seria bom se meus pais tivessem um emprego fixo. Detesto essa instabilidade. Um mês tem dinheiro, no outro não. É tão frustrante!

Minha mãe é um fracasso monetário. Reconheço o valor dela. Ela trabalha o dia inteiro, todos os dias. Até fins de semana e madrugadas. Mas se valoriza tão pouco! Sempre converso sobre isso com ela, mas deve ser bastante difícil mudar o jeito de agir depois de 50 anos. Ela é tão sensível e honesta e cheia de éticas e princípios que, no final do mês, acaba pagando para trabalhar. Literalmente. E depois tem que recorrer à minha avó.

Meu pai é uma máquina de ganhar dinheiro. Sempre que ele está realmente motivado, ele sai de casa com os olhos brilhando e volta com dinheiro suficiente para comprar um carro ou apartamento. Mas ele parece não se motivar com mais nada. Passa, praticamente, os dias em casa, comendo e dormindo e reclamando de tudo. As vezes com bastante ódio, gritando e descontando o que ele sente encima do mundo. Morro de pena quando ele maltrata as empregadas sem razão. Ou a minha irmã [tadinha, ela é uma canalizadora do ódio dele]. Ou até eu mesmo. Vez ou outra me vejo chorando por algo que não fiz de errado.

Minha avó já está senil. Toda a aposentadoria que ela recebe por mês, gasta na primeira semana e nem se lembra como. Ela paga os empregados mil vezes e esses desonestos malditos nunca devolvem. Eles exploram a minha avó.

Ambos, meu pai e mãe, têm tanto talento. Mas disperdiçam. Eles negam trabalhos pequenos de bobagem. Só querem coisas grandes. Mas parece que não sabem que não dá para chegar no último degrau sem pisar no primeiro. E mesmo que não seja lá o maior trabalho do mundo, qualquer coisa mantém você ativo. Ou no mercado. E sendo reconhecido. Falta tanta mobilidade e estímulo.

No final, vejo eles super tristes sem dinheiro e me sinto bastante culpado. Culpado pela minha faculdade custar tão caro. Pelo curso de inglês custar tão caro. Pelo curso de francês custar tão caro. Me sinto culpado por eles pagarem todas essas coisas, e tantas outras, e eu não as estar aproveitando como devia. Eu poderia, nesse momento, estar estudando inglês ao invéz de estar na internet. Assim como estudando em várias outras ocasiões. Mas não consigo! Não porque não consiga estudar. Isso é fácil, isso gosto. Por mim, passava um dia inteiro, sem parar, estudando. Mas porque enquanto estudo eu como. Se estou estudando, estou comendo. É inevitavel. E se eu continuar assim vou engordar muito fácil. E gosto tanto de ser magro. Odeio essa minha futilidade e esse meu capricho. Poderia, também, não gastar tanto dinheiro com revistas e dar o que me sobra no fim do mês para os meus pais. E fazer certas economias. Mas não me agüento!

Gostaria tanto de poder ajudá-los de alguma maneira, mas com a minha idade é difícil eu conseguir isso. E no final do mês só acabo dando despesas. É realmente frustrante.


O mundo está fodidamente perdido

Se tivesse estourado uma guerra hoje, eu não estaria tão chocado. Talvez nada pudesse me preparar para essa notícia. Eu já tinha pressentido, há 2 dias que ia acontecer. Mas não acreditei que fosse verdade. Sempre digo para mim mesmo para parar de pensar que sou mais uma Mãe Diná da vida, mas as vezes fico intrigado com meu poder de premonição. E é quase sempre a respeito de coisas ruins. Além disso, sempre acertei 100% de tudo que antevi. Fico até um pouco assustado. Antigamente eu via as coisas com uma antecedência de uns 5 minutos. Foi aumentando. Em dezembro, vi com uma de 3 horas. Mas 2 dias é bastante coisa. Espero não ter esse tumor paranormal se desenvolvendo dentro de mim porque
1. não acredito nessas coisas
2. não gosto de antever desgraças
mas não dá para negar que acontece comigo e não é nada normal.

Não sei nem porque falei isso. Fluiu. O assunto de eu estar pasmo é outra coisa. Sabe aquele casal que está junto há anos? Que se conhecem como ninguem. Dormem sempre na mesma coisa. Que durante mais de 30 meses trocam intensas declarações de amor diárias. Que quando todos pensam em um, pensam no outro. Parece que estão inrtinsicamente ligados? Então. O que devo pensar, sabendo que os 2 são grande amigos meus, quando o relacionamento acaba? E o motivo para tal é traição do namorado dela com sua melhor amiga? Parece até novela mexicana. A gente nunca acha que vai acontecer na vida real. Ainda mais com pessoas tão próximas que conhecemos tão bem. É um bizarro triângulo de amor. Acho que ninguém consegue imaginar o pai traindo a mãe com a avó. Foi mais ou menos isso que aconteceu.

Pior que era um casal que eu admirava tanto. Eles pareciam tão superiores. Cheios de valores e intocáveis. Perfeitos e imaculados. É difícil saber o que fazer quando seus ídolos caem. Seus ícones quebram. A gente perde o rumo e começa a achar que nada é verdadeiro. Que nada dura para sempre. [nem diamantes duram para sempre, sabiam disso? Um dia eles viram grafite.] Pois eu estou assim. Desacreditando em amor. Acho que amor não é possível. Existe admiração. Paixão. Tesão. Interesse. Mas talvez amor não exista. E é por isso que existe tanto filme de amor. Músicas sobre amor. Queremos acreditar que é verdade, mas talvez não seja. Pensem: quantos casais vocês conhecem que estão juntos há mais de 10 anos e ainda se amam? realmente se amam?

A menina do casal, principalmente, eu admirava tanto. Olhava para seu namorado e pensava em quanta sorte ele tinha em tê-la. Será que ele mesmo não percebe quanta sorte tinha? Tão bonita. Sensível. Inteligente. Melhor não começar, pois não vou conseguir parar tão cedo. Impossível descrevê-la. Inefável. Oh, droga. Agora, só queria correr para casa dela e abraçá-la por alguns segundos. Talvez, fazer-lhe um brigadeiro e comer sentado numa almofada. Mas não tenho essa intimidade toda. Eu quero coisas tão simples. preciso de tantas trivialidades. Meus desejos são tão banais, mas tão sinceros e tão verdadeiros e tão fodidamente intensos

Estou tão perdido. Tão sem saber o que pensar. Completamente desorientado. Gostaria que alguém parasse para me dar um rumo. Vai ser bastante difícil me recompor. Quero respirar. Não vou conseguir dormir.


A moda no mundo GLS agora é endeusar a Christina Aguilera, só porque em um clipe dela aparecem 2 homens se beijando. Gays de todo o Brasil consideram isso uma enorme audácia da cantora que está publicamente expondo sua imagem. Todos recomendam comprar o CD para ouvir a música e ver o clipe incessantemente, até níveis lobotômicos.

Sinceramente? Acho ridículo.

Parece um amigo meu que disse que temos que consumir tudo da dupla Tatu, porque elas são lésbicas. Acho que elas cantam mal, não têm recursos vocais nenhum, a música é chata e tudo em russo. Quando não é em russo, é em inglês e não acho que russos devam cantar em inglês. Já falei que tatu ganha mais cavando buraco. Para gostar disso, só sendo topeira, mesmo.

Se é para consumir algo gay de qualidade só para alimentar a causa, então vai ler os livros de Caio Fernando Abreu que são bastante bons.

Fevereiro 16, 2003


Andei reparando que todos tendem ao exagero. Ninguém nem mais se importa se vai fazer uma boa imagem ou não. As pessoas gostam, realmente, é de mostrar que conseguem ultrapassar os seus limites. Mostrar não, dizer. E sem motivos. Não paro mais de ouvir histórias megalomanas. E não é possível que esteja acontecendo tanta coisa, com todo mundo, todos os dias. Ninguém descansa não?

Vejam bebida, por exemplo. Só ouço pessoas dizendo "Bebi pra caraaaaaalho e fiz muuuuuita merda". Façam uma pesquisa e descubram que a pessoa nem bebeu tanto e que a maior merda que fez, foi tropeçar no cadarço. Outra frase é "Por mais que eu beba, nem fico bêbado. Posso beber a noite toda que fico tranqüilasso". O que aconteceu com as pessoas que bebiam 2 cervejas e ficavam bêbadas? Ou as que tomavam um copo de vodka e dormiam? Morreram? Sumiram? Não existem mais? Se for assim, nosso organismo ou se adaptou ao álcool, ou reage ferozmente contra ele. Reparem, também, na primeira frase, a vogal puxada. Ela é típica. E observem na segunda o 'tranqüilasso'. Essa palavra nem existe, mas deixa tudo maior.

Eu, bebo 2 ou 3 copos de tequila e fico a pessoa mais feliz do mundo. Fico mesmo. Danço que nem um idiota. Falo umas bobagens. Rio mais facilmente. Me embaraço em algumas palavras. As vezes troco os pés. Mas eu não perco o controle. Eu não fico inconseqüente. Nem tenho lapsos de memória. Continuo tendo minha noção de bom senso. E também não fico sóbrio. Não vou dizer que nada acontece, porque está acontecendo. Tenho até mais dificuldade em escrever. Se estou no fim da frase, muitas vezes nem me lembro do início.

Outro caso é que, agora, 6 entre 10 pessoas soltam as frases "Liguei o foda-se". "Faço tudo que quero e não tou nem aí". "Nem me importo pro que os outros pensam". "Fala sério, até parece que me importo com o que eles dizem.". Até parece é que tanta gente tem essa liberdade toda. A maioria pode até ligar o foda-se para um assunto, mas não para todos. E mesmo se parar de se importar com aquilo, vai estar sempre dando uma olhada de soslaio para ver o que está acontecendo. Quase todos tiram satisfação quando falam mal deles por trás. Ou pelo menos descobre o boato direito e tenta pará-lo, ou tomo uma atitude qualquer. Estou errado? Afinal de contas é a minha imagem. É o meu nome. Tenho direito de saber o que andam falando de mim. E se for mentira, também tenho o direito de contrariar. Mesmo que seja alguém imbecil falando algo imbecil. Mas aí vem "Você tem que mostrar que é superior. Que não se importa. Seus amigos saberão que é tudo mentira". Não é tão simples assim e todo mundo sabe disso. Nem todos os amigos são tão fiéis ou inteligentes. E, mesmo se forem, não quero o resto do mundo me olhando de cara fechada.

Está na moda também a fabulosa fábrica de meninos-gênios e meninos-imbecis. Cansei de ouvir frases do tipo "Não estudei nada. Nem sabia a matéria. Chutei tudo e tirei 10." Quem for realmente assim, recomendo apostar na loteria ou pedir uma bolsa em Harvard. Qual o problema de dizer que passou uma semana estudando que nem um condenado e fazendo todos os exercícios? Outra frase é "Estudei pra caralho, sem parar, paguei até professor particular e tirei zero.". Ninguém é tão burro. Ninguém se esforça tanto para não obter nada. Pagar professor particular é uma coisa. Fazer bom uso de sua aula é outra. Quem realmente se esforça não vai tão mal. Qual o problema de admitir que não estudou e é um grande vagabundo? Que ficou comendo biscoito e vendo TV enquanto tentava ler o livro? Culpar o professor, a matéria e a prova é mais fácil que estudar? Ah tá. Ano passado, eu fui um puta-nerd CDF que ficou sem sair de casa, que nem um idiota, nos primeiros 6 meses, estudando de 6 da manhã até 9:30 da noite para o vestibular. Parece cansativo? Pois foi mesmo. Depois das férias, abandonei bastante os estudos. Larguei cursinho e inglês, só estudava para o colégio e vagabundeava bastante. Isso quase me custou minha vaga. Me senti bastante culpado depois de ter agido assim. Mas 2 ou 3 semanas antes do vestibular, estudei, praticamente, umas 14 horas por dia. Li os livros de história do Brasil e história geral inteiros. E decorei, literalmente decorei, tudo o que tinha dentro deles 2. Sou um nerd, sem nada para fazer, que está jogando a vida fora, enquanto poderia estar me divertindo? Talvez. Mas vou dizer que nunca tive tanto orgulho de mim mesmo. Foi a primeira vez que me esforcei tanto para alguma coisa. E consegui obter o que queria. Passei aos trampos e barrancos, mas passei para o curso que queria. Na faculdade que eu queria. Sem ter que passar pela reclassificação, enquanto a maioria dos que conheço não conseguiu. Agora, jogam a culpa no colégio dizendo que era uma merda. O colégio é uma merda? É. Mas teve gente de colégios piores que passou. Não foi?

Não aguento mais gente fingindo que é tudo tão simples. Ou tão complicado. Gente que vem o dia inteiro, todos os dias, falar que está muito triste. E que nem tem motivo para estar assim. Eu, por experiência própria, vejo que 90% disso é showzinho. Gente que não tem mais o que fazer e resolve ficar deprimido. Quase um estilo. Até parece que existe tanto gótico. Tanto Clubber. Tanto hippie. Tanto punk. As pessoas reclamam que são rotuladas, mas o sonho da maioria é meter um rótulo na testa mesmo. Quem não conhece um menino mala que sempre se apresenta "Meu nome é Fulano, me amarro em Ramones, gosto de encher a cara e uso drogas pra caralho". Quem faz isso não sai anunciando. Isso é coisa de quem fala e não faz. Por isso que tem tanta gente se arrependendo de ter engravidado. Ou de feito uma tatuagem. E até viciado em cocaína.

Mas não tem problema. No final das contas, sempre cai a máscara.

[Isso daí está cheio de desabafos e generalizaçõs. Digo desde já, antes que levantem bandeiras, que não é regra geral para nada. Nem que sou dono da verdade. Mas que eu vejo acontecendo, é verdade. E que sei o que estou falando também. Pelo menos, conheço dezenas de tipos assim. E, infelizmente, por mais que eu tente acreditar que sim, nem sempre caem as máscaras.]


Manifesto anti-goiabada.

Tudo começou há 3 anos, quando o meu pai entrou numa loja, provou de uma goiabada e a achou maravilhosa. Então, ele comprou todas as goiabadas daquela marca que tinham no mercado. Acreditem: é muita goiabada. Eu nem conseguia andar direito pela cozinha sem esbarrar nas caixas daquelas malditas goiabadas. A megalomania com comida, aqui em casa, é assustadora.

Nos meses que se seguiram, no café da manhã, almoço e jantar, tudo que tinha de doce para comer era: Goiabada. Goiabada com queijo. Doce de goiabada. Bolo de fubá recheado de goiabada. Quitutes de goiabada. Goiabada com catupiri, quente. Calda de goiabada. Torta de goiabada. Supremos de goiabada. Fritada relâmpago de goiabada. Goiabada flambada. Baba-de-moça de goiabada. Biscoitinhos de goiabada. Bolo peteleco de goiabada. Bombas de goiabada. Pudim de goiabada. Charlotte de goiabada. Manjar, mousse e mingáu de goiabada.

Eu não suporto mais ver essa fruta. Se você me der uma goiaba, vou jogar ela na sua cara. Levar uma goiaba na testa: isso sim que é levar uma goiabada. Pior do que isso, só passar 3 anos ouvindos os mesmos elogios de todas as ilustres figuras que vêm jantar aqui em casa:

- Que delícia esta goiabada de compoteira.
- Esta é a verdadeira goiabada de tacho!
- Essa goiabada é da genuína.
- Que maravilha, é goiaba pura.
- Isso sim que é a legítima goiabada.
- Essa não tem enganação!
- Sublime. Estarrecedora. De dar uivos de cachorro atropelado.
- Onde você comprou este manjar dos deuses?

E meu pai nem tem o que fazer com tanta goiabada. Sempre que vem visita aqui em casa, antes de irem embora, meu pai se aproxima e fala "leva uma goiabadinha para você" e joga um pacote dentro da bolsa das mulheres. Sempre que ele vai no vizinho, ele leva 2 goiabadas [uma para ele, outra para a mulher]. Quando arranjei uma namorada, toda semana ele entregava goiabadas na portaria da 'sogrinha' [e acho que foi por isso que o relacionamento acabou]. Em todos os jantares que faz, ele serve goiabada. Em todos os jantares que vai, ele leva uma garrafa de vinho e uma sacola de goiabadas.

Mas não achem que são as mesmas velhas goiabadas de 3 anos atrás, porque toda semana ele compra mais goiabadas. Depois de virar o consumidor majoritário dessas goiabadinhas no mercado e monopolizar esse consumo, ele agora compra direto com o fabricante, praticamente todas que conseguem produzir. Eu sei até o nome da mulher que faz as goiabadas. Vocês, provavelmente, jamais terão acesso às goiabadas. Ele compra todas mesmo. E dá para todos os amigos próximos. Todos os clientes. Manda para conhecidos na Europa.

Jamais vi uma neurose tão grande com um doce tão imbecil. Tá certo que esta goiabada, em especial, é realmente bastante gostosa, mas eu já enjoei faz anos. ANOS. Ele perdeu o limite completamente. Está enlouquecido. E o pior é que ele, minha mãe e minha avó, continuam comendo essas goiabadas todos os dias. Eles devem cagar roxo! Eu olho para qualquer goiabada e tenho vontade de vomitar. Mas eles continuam comendo. A mesma goiabada embrulhada em papel transparente e guardada na caixa branca. Que é despejada na mesma compoteira de cristal. Há 3 anos. Mesmo se você lavar a compoteira com água sanitária, acho que ainda deve conseguir sentir o cheiro da goiabada.