Março 28, 2003


Clube dos Enganados

É isso aí. Acho que a Ju entendeu bem o problema. Já que ela é uma das enganadas. Tão enganada quanto eu estou enganado e como há uma legião de enganados vagando pelos cantos desse país.

Quando eu era estudante colegial, foi-me prometido um oásis estudantil. Um mundo onde aula era opicional. Onde se tocasse o meu celular eu iria poder sair de sala para atendê-lo. Aliás, poderia sair de sala quando quisesse, pois não era obrigatório assisti-las. Onde não contassem presença. Onde eu não precisaria de caderno. Que não teria dever de casa. No oásis haveria muito homem gostoso e mulher bonita. Haveria infindos litros de cerveja, chopp e tequila e todos beberíamos todos os dias, o dia inteiro, a noite inteira e através da madrugada, quando, depois, faríamos sexo com os homens gostosos e mulheres bonitas.

Neste mundo pós-colégio, chamado faculdade, eu não iria a aula. Eu não estudaria. Aprender seria optativo. Passar de ano seria fácil. Os professores constantemente não iriam dar aula por motivos particulares. Eu dormiria quando eles a dessem. Em casa, eu não leria um livro. Só tiraria xérox de coisas inúteis para referência. As aulas seriam curtas e idiotas. E, mesmo assim, eu me formaria em 4 anos com louvor e seria um profissional bem-sucedido.

Ok.

Passei no vestibular [vulgo monstro mitológico que separa o inferno do colégio do paraíso da faculdade, pelo qual temos que passar e derrotar para atingir o utópico paraíso: sublimação do espirito estudantil]. Entrei na faculdade. Eis que me pergunto: onde está esta porra deste paraíso, Caralho???

Acho que fui enganado.

Março 27, 2003


Falta de tempo

Falta de tempo é uma coisa engraçada. É algo que todo mundo diz sofrer. Sempre tem alguém que não consegue fazer algo e diz "não tive tempo" ou deixa de fazer um curso ou sair no fim de semana alegando "falta de tempo". Literalmente todo mundo fala isso. É normal. Mas só agora que eu estou realmente sofrendo desse problema.

Acho que a expressão "falta de tempo" é tão usada que já ficou um pouco banalizada. Exatamente por isso que eu sempre achei que ela fosse um mito, mas nunca verdadeira. É claro que já tiveram vezes que eu pensei não ter tido tempo, mas foi só ilusão. Do mesmo jeito que você pode achar que amou e não amou.

Ultimamente, eu ando sem tempo. Mas ando sem tempo mesmo no sentido mais literal possível. Todos os dias fico até as 4 da manhã estudando. Vou dormir e acordo às 8 da manhã pra estudar. Antes de ir pra faculdade, estudo. Quando chego em casa, estudo. Fim de semana, ao invés de sair, fico direto estudando. E, mesmo assim, não consigo acompanhar o ritmo. Ou eles estão passando coisa demais, ou sou muito lerdo, ou ainda não peguei o ritmo da faculdade. Ou não sei achar os pontos relevantes dos textos. Sei lá. O que importa é que estou quase explodindo aqui de tanta informação e tanta falta de tempo

Me sinto sufocado, porque não tenho tempo de respirar. À noite, eu vou dormir culpado, achando que poderia ter ficado mais 15 minutinhos acordado estudando. Não consigo sair com meus amigos, achando que não cumpri minhas obrigações. Dentro de mim, está se criando um monstro terrível de obrigação-responsabilidade-incapacidade-culpa que está me corroendo por dentro. Não sei nem direito o que fazer.

Além disso, continuo agitando alguns projetos por fora. O que torna tudo muito mais estranho. Estou divulgando um evento para sábado, dizendo para todas que vai ser ótimo e que estarei lá com certeza, mas na verdade ainda não sei se vou conseguir ir. O mesmo acontece com os amigos. Fico querendo marcar várias programações e não consigo porque me falta tempo.

Que saco. Que merda. É como se meu dia fosse menor. Ou como se meu dia devesse ter 30 horas, mas só tem 24. Isso é muito estranho. Nunca tinha acontecido comigo antes. A parte mais engraçada é que eu não consigo nem mesmo ficar triste ou chateado por causa disso, porque não tenho tempo! Só me resta esta pequena centelha rápida de ódio e indignação. Se eu for gastar meia hora remoendo minha tristeza, repito uma matéria.

Alguém está pegando a complexidade disso?

Ademais, às 2 leitoras do sexo feminino do meu blog, que sei que estão curiosas, informo que o H. é um amor de pessoa. Estamos trocando e-mails, já nos falamos pelo ICQ e descobri que ele conhece membros de minha família lá do interior. Fico aqui só imaginando se ele tem o sotaque daquele sotaque que eu amo. Aiai. Loucura.

Março 26, 2003


Coral

Hoje de manhã fui lá na faculdade fazer o teste pro coral. O importante do coral, é que eles vão me dar 50% de bolsa. Isso daria quase uns 500 reais. E eu só cantaria 8 horas por semana. Poxa, tem gente que trabalha 8 horas por dia pra ganhar isso, né? Me deu muita vontade de fazer. O unico problema é que vai consumir todas as minhas tardes de sábado.

Entrei no auditório e o cara ficou lá com um tecladinho, tocando escalas e me fazendo repetí-las. Depois, ele me fez cantar "atirei o pau no gato" umas 10 vezes, acreditam? Mas até que fiquei animado. As pessoas que cantaram antes de mim, só cantaram uma ou 2 vezes. E eu cantei quase 10. É que sou Barítono e alcanço notas muito altas e muito baixas também. Aí ele tinha que ver até onde ia minha flexibilidade vocal. O cara ficou muito empolgado com a minha voz, disse que sou afinado e que, como sou novo, ele ainda pode me moldar bem. Acho que tenho chances de entrar. Torçam por mim!

Ademais, o cara que fez a entrevista era muito gatinho. Muito mesmo. E, além de ter pinta de gay, vai estar em todos os ensaios. Será que vou conseguir "botar a boca no microfone"? [hahaha. ser vulgar e brega ao mesmo tempo não dá]

Júlia, nem liga pra esse negócio de (i)maturidade. Qualquer um que é idiota o suficiente para tentar estabelecer uma relação entre idade e maturidade, já é um completo imbecil [pra não dizer imaturo]. E no intervalo eu falo de qualquer coisa menos de política. Prefiro ficar falando sobre música, sexo e bebida mesmo.

Tinha mais um monte de coisa pra dizer, mas agora está me faltando tempo. Depois compenso. Não se sintam abandonados, ok?

Março 25, 2003


Odeio gente imbecil

[Imbecil foi o melhor adjetivo que consegui achar para uma série de fatores que detesto]

No começo da faculdade, eu estava super-empolgado com a situação toda e achando a turma ótima e as pessoas muito maneiras. Nada melhor do que 1 mês de aula e convívio pra cair na real. O paraíso não existe, babe, e foi erro meu achar que existia um oásis de estudantes na sociedade.

Hoje, depois de olhar bem em volta, cheguei a ficar com ânsia. Tirando raras excessões, a turma nem é muito legal. Pensei, também, já que a relação candidato-vaga era alta, que ia ser cheio de gente inteligente. Outro erro. A sala é lotada de gentinha. Aquele tipo de gentinha que quer mostrar pro professor que fez o dever de casa, sabe? O professor manda ler o texto e a pessoa chega na sala e, enquanto o professor dá a aula, ela vai repetindo tudo que o texto dizia. Só pra mostrar que leu. As "dúvidas", são todas afirmações terminadas com "tá certo?". Para que as pessoas perguntam isso, se elas sabem que está certo?

Além disso, tem o povinho do multidiciplinar. Aquelas pessoas que tentam encaixar uma matária na outra. Se professor fala "hoje eu almoçei pizza" o aluno idiota só falta dizer "eu poderia comparar a defecação da pizza com a Alegoria da Caverna de Platão?" Me poupe. Essas perguntinhas idiotas atrapalham o andamento da aula. O pessoal faz tudo por nota de participação mesmo. Sem contar um ou outro que confundem 'aula de faculdade' com 'aula particular' e interrompe o professor no meio de um assunto sobre a dúvida de um outro assunto. E, quando o professor muda de assunto, alguém sugere outro assunto. Ad infinitum e acaba que não fechamos nada.

Como sempre, também tem a menininha do tipo "sou-pobre-mas-quero-que-voces-vejam-como-estou-batalhando-pelo-meu-futuro". Fica lá na sala, vendendo rifa e falando "a rifa é pra pagar a matricula da minha faculdade, porque meu pai pegou dinheiro emprestado no banco, etc..." se fazendo de vítima. Ah, me dá um tempo. Pode vender a rifa, mas não sou obrigado a ouvir a mesma historinha o dia todo. No ônibus tem o perneta pedindo dinheiro. Na sala de aula também tem gente mendigando? Sinceramente, eu não sou serviço social não. Pra que a menina escolheu fazer uma faculdade cara? Que fosse pra uma pública. O pessoal fica achando que cago verde. Tem gente muito mais pobre e fudida naquela sala que não está reclamando. Eu vou sacrificar meu sábado [repito, sacrificar meu sábado] pra entrar pro coral da faculdade e ganhar bolsa. Ao invés de ficar resmungando no meu ouvido, ela bem que podia fazer o mesmo. Pior do que isso, só os otários que caem e ainda dizem "oh, por que você não disse antes que era para uma boa causa? Quero 3 rifas". Meu cu com fritas, óquei?

Na sala, também tem as esnobes. Menininhas "eu-sou-rica-e-não-preciso-de-vocês". Mas estou pouco me fudendo. Olho de volta para elas com a minha cara de "eu-sou-pobre-e-não-preciso-de-vocês".

As famosas panelinhas já se formaram também. Isso é mais normal e nem condeno, afinal de contas, temos mais afinidade com umas pessoas do que com outras. Quando derem festinha, não vai dar pra chamar a sala inteira, então vai rolar uma seleção [isso é engraçado, porque sempre sai briga, hehe]. O que não suporto é ver as fofoquinhas que já estão rolando. E bilhetinhos. Alguém acredita que ainda existe bilhetinhos? Tosco. Mas acho que a pior parte é as conversas codificadas. Porque as pessoas fazem questão de mostrar pra você que elas têm segredos. Por isso, vão para a sua frente e ficam "sabe aquela coisinha daquele troço que eu te disse? então... nem é." e a outra responde "jura? mas e aquela outra parada lá que te contei. aconteceu?". Qual a necessidade? Que vão para um canto conversar. Odeio essa merda.

Eu poderia ficar horas aqui falando desse povinho, mas acho que vocês iam se cansar, hehe. Para dar um descanso, amanhã vou falar sobre as pessoas bonitas da sala com requintes de detalhes, que tal?

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Ah, e hoje, tive um sonho muito estranho onde o Daniel era uma índia anã e velha de 1,40m com a pela toda enrrugada e uma voz muito irritante. Ele fumava cachimbo e tinha uma risada estridente. Que pecado, né? Quem conhece o menino sabe que ele não merece. Ele é tão gostoso. Ademais, tem um menino na minha sala que também leu Nietzsche com 15 anos. Fala dúzias de línguas e tem carinha de Vicking. Isso desmistifica um pouco nosso menino prodígio, certo? ERRADO.

Março 24, 2003


Chega de escravidão

Nem só de trabalho duro e resmungo vive o Parcimonioso. Esta alegre criatura que vos fala, por mais incrível que pareça, também sabe se divertir.

Noite de Oscar. Meus pais estão viajando. Quais as possibilidades de eu ficar em casa assistindo esta merda de entrega de prêmios? Nula. Aquela estatueta não serve nem pra enfiar no cu. E, para quem não sabe, a boate Bunker aqui do RJ acabou. Ontem foi o último dia. Não podia deixar de comparecer no encerramento do local, certo?

Consegui entrar de graça [isso que dá ir pra cama com o cara que arranja o VIP], depois de ficar por volta de uma hora lá na porta. Eu sempre chego mais cedo. Boate é muito bom, mas o pré-boate é bem melhor. Ficar ali na porta conversando com as pessoas, falando merda e ouvindo babado é muito bom.

Lá dentro não estava tão cheio. E nem tinha homem-gato. Mas a música tava foda e as pessoas legais que estão sempre lá, estavam lá. Alias, eles me deram um novo apelido: Mokoshóke. Tosco, né? Em cada lugar que eu vou, as pessoas me inventam vários apelidos novo. Tenho uma enorme coleção deles. Qualquer dia eu boto a listinha aqui para vocês darem umas risadas.

Consegui conversar com o menino que me deu um fora outro dia. Descobri que ele tem namorado. Ele é super-simpático e bem afetada. E menor de idade. Aliás, não é todo mundo que tem mais de 18 por ali não. A boate é repleta de lolitinhos sapecas dançando assanhadamente.

Depois de umas bebidinhas e de ouvir a música foda da DJ que eu amo, tudo ficou bem mais legal. Além disso, tinha um(a) japones(a) de uns 40 (60?) anos de idade encima de uma plataforma dançando ensandecidamente que me fez rolar de rir. Passei um tempo num canto reservado do local, onde o som não chega, a luz é fraca e a mobília é somente um fogão, uma cama e uma televisão. Tinha um pessoal chapadasso imitando Betty, a feia, que estava ótimo.

Sem contar que o dia também foi importante para saber, agora com o fechamento do point-gls, qual será nosso rumo. Néam?

Ah, quase esqueci de contar. Cheguei em casa, tomei banho, etc. E, quando acordei, tinha uma colher-de-sopa no meu bolso. Uma enorme colher-de-sopa de sopa com 3 furos. Nunca tinha visto esta colher na minha vida. Alguém me explica como esta porra desta enorme colher-de-sopa misteriosa veio parar no meu bolso?